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Crônicas

 

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O Sinal

 

Em primeiro lugar, minhas amáveis leitoras, esclareço que os personagens desta crônica, ou as personagens, como melhor lhe soar, são fictícios, e que visitam estas linhas, não digo por mero acaso, mas por desempenho do ofício: uma professora e um aluno.  Um menino muito inteligente, engraçado , mas que faço questão de enfatizar: não é meu filho.

 

O cenário é o pátio de uma escola, o que talvez algumas mais espertas logo percebessem pelo barulho das crianças, que, por vezes, vaza em alguns travessões. Mas, preferi lhes poupar o esforço e o tempo de tais conjecturas, afinal, a qualquer momento a campaninha do recreio irá tocar, pondo por fim à nossa história, o que pode trazer tristeza para uns e alívio para outros.

 

Tudo começa com a professora, Maria Cecília é o seu nome, observando um menino que está sentado, sozinho, no tanque de areia, muito quieto, muito compenetrado. Ela decide ir até lá ver o que estava acontecendo.
Sem que ela perceba, o menino acompanha atentamente sua aproximação.


– Oi, Pedro, tudo bem?
Surpreso, ele permanece em silêncio, olhando para ela, sem piscar.
– De que você está brincando? – ela insiste.
– Ué, você está me vendo, Tia Ciça?
– Claro.
Com um tom um pouco contrariado, ele quis saber:
– Como você está me vendo, se eu estou aqui paladinho, fazendo minha cala de invisível?
Atrapalhada, ela tenta consertar:
– Onde você foi parar? Estou ouvindo só a sua voz
– Pronto. Apaleci.
– Ufa! Quem bom. Achei que você tinha ido embora.
A professora decide lhe fazer companhia e senta-se ao seu lado.
– Pedra, tesoura, papel!
– Pedro, você sabia que está chegando o dia da criança?
As nuvens no céu se abrem e a expressão do pequeno se ilumina no mesmo instante.
– Você sabia que eu vou ganhar uma fantasia do Homem Alanha?
– É? E ele tem superpoderes que nem você?
– Não. Ele não consegue ficar invisível – afirma com certo ar de superioridade.
– É verdade. Mas você sobe nas paredes?
– Minha mãe não deixa eu subir nas paledes– e um pouco desgostoso completa – acho que é porque eu sou criança.
Pelas eventuais trocas de erres por eles, vocês já devem ter percebido que esta criança tem por volta de seus quatro anos. Quatro anos e quatro meses, para ser mais exato.
– E você não gosta de ser criança?
Ele para, pensa, e responde:
– Mais ou menos.
– Por quê?
Ainda reflexivo:
– Porque adulto é melhor. Quer dizer, a criança... toda hora ...tem que parar.
– Como assim?
– Bom, quando estou brincando, minha mãe me manda parar para tomar banho.
–Ué, tem que tomar banho, Pedro. Vai ficar sujo?
– Mas quando estou brincando no banho, ela fala que tenho que sair para ir para a festa. Quando estou na festa, tenho que voltar para casa dormir.
– Dormir é importante para crescer.
– Mas, de manhã, quando estou dormindo, ela diz que eu tenho que parar de dormir para brincar. Aí eu fico blavo.
– Por quê?
– Ué, por que ela não me deixou blincando desde “ontem”?
– É porque...
– E o meu pai vive dizendo “vamos, a gente está atlasado”. Eu não gosto desta palavra.
– E qual palavra você gosta?
A resposta sai em tom de confissão:
– Só-mais-um-pouquinho.
– É uma palavra bem longa essa, não é?
– Meu pai também acha muito longa. Depois que repito ela pela terceira vez, ele se lembra do meu nome todo: “Pedro da Silva Salles”. Ele me chama com uma voz que treme o chão.
– O seu pai fica bravo?
Nova parada para refletir.
– De vez em quando ele fica.
– E ele te põe de castigo?
– Sim – essa ele responde rápido.
– E qual é o castigo?
– Ficar no cantinho pensando. Não jogar joguinho no computador dele.
– Você gosta de jogar?
– Meu pai diz que quando ele era criança não tinha computador. Só midiogame.
– Video game.
O pequeno conclui:
– Ainda bem que não tinha. Se tivesse computador, ele ia querer ficar trabalhando o dia todo e não ia brincar, comer comida saudável e nem ver DVD.
– Quando ele era criança não tinha DVD – ela corrigiu sem pensar.
– É sério? Nem televisão?
– Televisão tinha, mas não tinha canal só para criança.
– Não tinha Dino Trem?
– Não.
– Tia Ciça, o meu pai nasceu antes do pelíodo Cletáceo?
Meio confusa, a mestra resolve retomar o rumo da prosa:
– O seu pai às vezes briga, mas ele gosta muito de você.
– Eu sei que ele gosta. Mas é que de vez em quando vem o lobo e engole ele.
– Quem te contou esta história?
– Ninguém me contou, eu sei. Aquela voz de trovão é do lobo. Você dorme de luz apagada?
– Durmo. Você tem medo de escuro?
– Eu? Não. A minha irmã que tem. Ela acende a luzinha de dormir. Eu só peço para a porta ficar aberta.
– Sabe, Pedro, o seu pai quer o melhor para você.
– Não quer não, porque quando a gente vai na festa, ele não me deixa comer muita bala. Bala é melhor que salgado.
– É que quem come muita bala passa mal.
– Cachorro-quente é saudável?
­–  Bom...os adultos sabem das coisas.
– Mais ou menos. Meu pai não sabe jogar DS. Nem minha mãe. Nem minha tia. Nem minha vó.
Acreditando que ninguém da família deveria saber jogar, ela tratou de cortar a sequência genealógica:
– Você tem DS?
– Não. Eu jogo o do meu amigo do prédio. Ele também tem Wii. Eu queria ganhar um no dia da criança, mas meu pai não vai me dar.
– Ele não deve querer que você passe o dia inteiro jogando.
Ele abaixou os olhos e começou a afundar o dedo na areia.
– Quando eu era pequeno, ele me deu uma palmada.
Ah, moleque boquirroto, X9.  Entregando o próprio pai.
– Por quê ele fez isso?
– Quando eu tinha dois ou três anos. Eu estava no Maternal 3. Não lembro.
– Você tinha feito uma bobagem?
– Tinha.
– Qual?
– Não lembro.
– Ele deve se lembrar.
Tá vendo, leitora? Se fosse meu filho, esta hora eu estava encrencado. Essa crônica ia virar policial.
E sua mãe briga com você?
– Ana Banana, vegetariana, 24 horas, abriu!
– Às vezes, mas ela briga baixinho.
– Outro dia, contei para ela que eu ia encontrar minha namorada na festa.
– Quem é sua namorada?
Meio envergonhado, ela respondeu:
– A Vitória. Minha mãe me disse que criança de 4 anos não pode namorar.
– Ela tem razão.
– É, mas não tem problema, porque a Vitória já fez 5 anos.
Esse moleque é meu orgulho.
A professora emendou uma pergunta para conter o riso:
 – Você já contou pra Vitória que ela é sua namorada?
– Já.
– E o que ela disse?
– Ela achou engraçado. Estrela cadente existe?
– Existe.
– E onde elas caem?
– Onde elas caem? Bem...bom...elas caem no céu.
– Mas o céu é lá em cima.
– Elas caem nas nuvens.
– Ah, tá. O que enche a lua cheia? De que é feito o anel de Saturno? Eu posso escorregar nele? E quem é o presidente de Portugal?
 A situação estava complicada, só um sinal divino poderia salvar a honra daquela professora tão prestimosa:
 – Béeeeeeeeeeeeeeennnnnn!
– Acabou o recreio, Pedro. Hora de ir para a sala.
E ele ainda teve tempo de retrucar:
– Tia Ciça, procura no Google.

Estão vendo? Puxou ao pai.

 

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