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Crônicas

 

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Um pai perdido na Terra do Sempre

 

Em uma noite destas de inverno, fria, mas com céu estrelado, estava lendo uma história para meus filhos e acabei adormecendo em seu quarto. Despertei com um som vindo lá de fora. Parecia o toque de um celular. Devia ser de outro apartamento.

Olhei para o lado, e o Pedro dormia como um anjo. Do outro lado, Marina ressonava baixinho. Apaguei o abajur da mesinha de cabeceira, cobri os dois e, com os olhos semicerrados, me arrastei até a porta, quando escutei novamente um barulho, só que desta vez parecia que algo ou alguém estava batendo no vidro.

Antes que as crianças acordassem, resolvi abrir a janela, para ver o que estava acontecendo.
O quarto estava escuro, mas, com a luz que vinha da rua, consegui identificar, atrás da rede de proteção, a silueta de um menino, de seus sete, talvez nove anos, vestindo uma roupa engraçada.

– Você viu minha sombra por aí? – ele perguntou com um tom meio petulante, enfiando a cabeça para dentro do quarto.
– Que mané sombra, moleque? Tá maluco? Desce daí, a gente está no quarto andar, essa rede arrebenta, você vai ca...
Antes que terminasse a frase, ele entrou voando, atravessou a rede como se fosse uma fumaça, deu um razante sobre a cama e agarrou a sombra dele que estava atrás da porta.
– Que isso, menino, pra que tanta pressa? Vai acordar as crianças.
– É que estou atrasado.
– Atrasado pra quê? São duas horas da manhã. Parece aquele coelho...
– Nós da Terra do Sempre, estamos sempre com pressa, pois temos muitas coisas para fazer.
– Terra do Sempre. Onde fica isto?
– Seu celular acessa a internet? Acessa aí o Google Earth.
– Ok, ok, depois eu procuro. Mas o que vocês fazem lá de tão interessante?
– Coisas importantes.
– Por exemplo?
– Ver vídeos na internet, escrever o que estamos fazendo em redes sociais, baixar aplicativos para nossos celulares. E fazer reuniões, muitas reuniões.
– Compreendo.
Nesta hora reparei que tinha uma luzinha flutuando do lado de fora.
– Que bicho é esse?
– Não é bicho, é uma fada.

Como nada mais me espantava naquele momento, perguntei com naturalidade e doçura:
– Oi, querida, como é o seu nome?
Ela, em um movimento rápido e contínuo, escreveu o seu nome no ar, com um pó brilhante e letras caligráficas.
Estendi o dedinho para cumprimentá-la:
– Oi, Ivone, muito prazer. Meu nome é...Ai!
A danada mordeu a ponta do meu dedo, voou até o canto do quarto, e amarrou a maior tromba.
– O que houve? O que eu disse de errado? – perguntei.
O menino esclareceu:
– É que ela não gosta quando a chamam de Ivone. Prefere a pronúncia em inglês: Ai-vone.
– Entendi. Por que ela não falou?
– Ela não sabe falar.
– Só sabe tilintilar?
– Não. Só toca ringtone ou mensagem SMS.
– Mas me conta aí, rapaz...aliás, como você se chama?
– Peter Pan.
– Sim, Sr. Pan, com quem você se reúne nesta Terra do Sempre?
– Com os Papais Perdidos.
– Quem são eles?
– São pais que saíram para reuniões, para atender rapidinho o celular, para ver algo rapidinho no computador, e, quando se deram conta, estava na Terra do Sempre.
– Entendo. Que triste. Mas cá entre nós, pelo menos lá, eles conseguem ter um pouco de tranqüilidade.
– Nem sempre, pois lá também vivem as crianças-piratas. Elas estão sempre atrás dos adultos perdidos, pedindo para brincar, jogar bola, desenhar.
– Todas elas juntas?
– Todas.
– Assustador.
– Às vezes as crianças-piratas conseguem capturar um pai perdido e fazem com que ele brinque com elas uma brincadeira inteira, sem atender o celular.
– Meu Deus!
– Ou o submetem a seções de "Por quê", que podem durar horas e horas. E ele tem que responder a todas as perguntas.
– E, então, a única esperança do pobre pai perdido é ser salvo pelo ICroc.
– Que coisa é essa?
– Não é coisa, é bicho. Um crocodilo enorme que engoliu um smartphone, com GPS e que sincroniza com o Outllook. Só ele pode encontrar um pai perdido e salvar das garras das crianças-piratas, levando ele para uma reunião.
– Que história incrível. Mas, por falar em reunião, amanhã tenho um compromisso cedo, em Campo Grande. Podemos agendar outra hora nesta semana?
– Deixa eu consultar a I-vone.

A fadinha balançou negativamente a cabeça, com um ar vingativo.
– Tudo bem, Peter, marcamos pra outra semana. Mas antes de partir, me diga, por que você veio até a minha casa?
O garoto pareceu surpreso e embaraçado com a pergunta:
– É...bem...não me lembro.
– Ixi, rapaz, você deve estar sofrendo de obesidade de informação.
– Deve ser. Bom, está na minha hora. A gente vai se falando por e-mail e se encontra um dia destes. Fui!

Na manhã seguinte, saí cedo para trabalhar e, à noite, quando retornei, as crianças já estavam na cama.
Entrei, dei um beijo na Marina, que já estava dormindo, e me dirigi para a cama do Pedro.
– Boa-noite, filho. Tenha bons sonhos.
– Pai, sabe o que eu sonhei ontem?
– Não, filho. O que foi filho?
– Sonhei que tinha virado o Capitão Gancho.

Esta paródia prá lá de non-sense não é para deixar os pais se sentindo (mais) culpados, e irem correndo para casa, verificar se as mãozinhas dos seus filhos estão todas no lugar.

A ideia é refletir se, às vezes, não podemos negociar um pouco com o ICroc. Sair um dia na hora do almoço, para pegar o filho na escola. Evitar de marcar uma reunião na hora da aula pública de artes. Dar uma fugidinha para ver a aula de futebol.

Sei que temos compromissos. Esta reunião em Campo Grande não foi obra da minha imaginação. Aconteceu e impediu que eu fosse à aula pública de balé de minha filha. Fiquei chateado e fiz questão de explicar isso para ela.

Outra coisa importante é não cair na armadilha de pensar " Ah, a mãe vai, a mãe faz, a mãe brinca, dá no mesmo". Pode ser tão bom quanto, mas nunca será a mesma coisa. Tente lembrar quando você era criança, como você sentia quando o seu pai aparecia de surpresa.
Então, SEMPRE que puder, SEMPRE que conseguir despistar o ICroc, esteja presente. Tenho certeza que, para seus filhos, este será o verdadeiro dia dos pais.

Flavio Salles
Pai de Marina e Pedro

 

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